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Blog - A Importância da Reciclagem

O maior aterro de lixo do mundo está localizado no meio do oceano

By Capt. Charles Moore (traduzido por Luís Peazê)
(título original: World's Largest 'Landfill' is in the Middle of
the Ocean CAPT. CHARLES MOORE, Marine Research Foundation)


Há uma grande parte no centro do Oceano Pacífico que ninguém nunca visita ou poucos já passaram. Os velejadores evitam esta parte como a uma praga porque ali falta vento. Pescadores deixam-na de lado porque a sua carência de nutrientes a transforma num oceano deserto. Ela faz parte da “latitude dos cavalos”, por onde os antigos navegantes ficavam à deriva, e, sem comida e água, tinham que jogar suas cargas de animais ao mar. Surpreendentemente, esta área é o maior domínio oceânico do nosso planeta, mais ou menos do tamanho da África, passa de dez milhões de milhas quadradas.

Uma montanha de ar, que é aquecida no equador e começa a descer lentamente em espiral no sentido horário a medida que aproxima-se do pólo norte, cria este domínio oceânico. Os ventos circulares produzem correntes oceânicas espiraladas para o centro onde há uma ligeira força centrífuga. Os cientistas conhecem este fenômeno atmosférico como alta pressão sub tropical, e a corrente oceânica que ela cria é conhecida como corrente central do Norte Pacífico ou “giro” sub tropical.

Por causa da estabilidade deste lento redemoinho, a maior expressão de uniformidade climática da Terra é, também, um acumulador de entulhos da civilização. Qualquer coisa que flutue, não importa de onde venha, dentro dos limites do círculo norte do Oceano Pacífico, acaba a sua viagem ali, às vezes após derivar pela periferia por doze anos ou mais. Historicamente, os entulhos não acumulavam porque eventualmente degradavam pela ação de microorganismos transformando-se em dióxido de carbono e água. Hoje em dia, entretanto, no afã de armazenar mercadorias contra a deterioração, nós criamos uma classe de produtos que desafia até a mais criativa e insidiosa bactéria. Esta classe de produtos são os “plásticos”.

Os plásticos estão virtualmente por toda parte na sociedade moderna. Bebemos neles, comemos neles, sentamos nele e até nos locomovemos neles. Eles são duráveis, leves, baratos e podem ser transformados virtualmente em qualquer coisa. Mas são justamente estas propriedades úteis que fazem dos plásticos tão nocivos quando abandonados na natureza. Os plásticos são como os diamantes: para sempre!

Os plásticos não são biodegradáveis, eles são “fotodegradáveis” – um processo no qual suas partículas quebram-se pela ação do sol em partículas cada vez menores, todas, porém, mantendo a característica original. Isto é, continuam sendo plásticos, polímeros, eventualmente na sua menor representação em moléculas individuais de plástico, indigestas para qualquer organismo. Há cinqüenta anos, todas as peças de plástico que chegaram ao Oceano Pacífico oriundas do continente, quebraram-se em partículas e acumularam-se no “giro” central do Pacífico.

Oceanógrafos como Curtis Ebbesmeyer, conhecido mundialmente pela sua especialidade em despojos de naufrágios, se referem a essa área do oceano como o grande Remendo de Lixo do Pacífico. O problema é que não se trata de um remendo, tem o tamanho de um continente, e está sendo entulhado por lixo plástico flutuante. Minhas pesquisas tem documentado 6 libras de plástico para cada libra de plâncton nesta área. Em minha última viagem de pesquisa de três meses de ida e volta (2003) chegamos mais perto do Remendo de Lixo do que na anterior, e achamos níveis de fragmentos de plástico muito maiores por centenas de milhas. Consumimos semanas documentando os efeitos que provocam as areias que flutuam nesses plásticos nas criaturas que vivem nesta área. Nossos fotógrafos capturaram imagens de águas-vivas irreversivelmente enredadas em linhas, e organismos filtradores transparentes com fragmentos de plásticos coloridos em suas barrigas.

A medida que nós derivávamos para o centro deste sistema, fazendo fotografias debaixo d'água dia e noite, começamos a nos dar conta do que estava acontecendo. Um prato de papel jogado ao mar simplesmente permanecia conosco, não havia vento ou corrente para movê-lo para longe.

É ali que acabam todas as coisas que são carregadas rio abaixo para o mar. Em outubro 10, durante o nosso retorno para Santa Bárbara, descobrimos uma coisa que jamais havíamos documentado – uma Corrente de Langmuir de entulhos de plástico. Correntes oceânicas com a rotação contrária criam longas linhas de material, visíveis de cima como listras no oceano. Normalmente elas são formadas por organismos plantônicos ou espuma, mas nós descobrimos uma feita de plástico.

Tudo desde enormes mangueiras até minúsculos fragmentos formavam uma linha de uma milha de comprimento. Pegamos centenas de libras de redes de todos os tipos arroladas neste sistema, junto com todo o tipo de entulho imaginável. Algumas vezes correntes deste tipo derivam para cima das ilhas havaianas. É quando as praias de Waimanalo e Oahu ficam cobertas de areia de plástico azul e verde e com acumulação de grandes entulhos. Mais ao nordeste das ilhas havaianas, na Reserva do Ecossistema de Corais, focas, os mais ameaçados mamíferos dos Estados Unidos, ficam enredadas nos entulhos, especialmente em redes baratas de plástico abandonadas pelos pescadores industriais.

Noventa por cento das tartarugas verdes do mar havaiano aninham-se ali e comem aqueles entulhos, confundindo com alimento natural, como também fazem os albatrozes. Na verdade o estômago dos albatrozes se parecem com uma prateleira de isqueiros em loja de conveniência, de tantos que contêm. Entretanto, os problemas causados por entulhos de plástico não são apenas o enredamento e a indigestão. Há uma face ainda mais perversa da onipresença da poluição marinha pelos plásticos. Como esses fragmentos flutuam por aí, eles acumulam os venenos que nós fabricamos para várias aplicações e que não são biodegradáveis. Acontece que os polímeros de plásticos são esponjas para o DDT, PCBs e nonofenóis – óleos tóxicos que não se dissolvem em água do mar. Chegou-se ao cálculo de que “pellets” de plástico (pequenas pelotas) acumulam até um milhão de vezes o nível desses venenos que flutuam abandonados na água.

Isto não é como os metais pesados nocivos que afetam os animais que os ingerem diretamente. É mais do que isso, eles são o que chamamos “segunda geração” tóxica. Animais evoluem receptores para moléculas orgânicas chamados de hormônios, os quais regulam a atividade do cérebro e a reprodução. Hormônios receptores não podem distinguir aqueles tóxicos do hormônio estrogênico natural chamado de estradiol, e, quando os poluentes ancoram nestes receptores em vez de nos hormônios naturais, eles têm demonstrado inúmeros efeitos negativos em tudo, de pássaros, em peixes e em humanos. A questão das desordens hormonais tem se transformado num dos, se não o maior, problemas do século 21.

Desordens hormonais tem implicações na baixa produção de esperma e aumento da taxa de nascimento de fêmeas tanto em animais quanto em humanos. Incontrolavelmente, esta é uma tendência à extinção de qualquer espécie.

Trilhões de vetores poluentes estão sendo ingeridos pelos mais eficientes aspiradores naturais que a natureza já inventou: as redes de mucos de águas vivas e salpas que vivem lá no meio dos oceanos. Estes organismos são, por sua vez, comidos por peixes e certamente, em muitos casos, por humanos. Podemos cultivar orgânicos sem agrotóxicos, mas pode a natureza produzir um peixe isento de pesticida? Depois do que eu vi no Pacífico, tenho minhas dúvidas. Muitas vezes eu me pergunto por que não podemos aspirar aquelas partículas de plástico. Na verdade isto seria mais difícil do que aspirar cada polegada quadrada de todo o território dos Estados Unidos. Além de ser um espaço maior, os fragmentos estão misturados e abaixo da superfície às vezes até trinta metros. Sem falar que inúmeros organismos seriam destruídos durante o processo. Por fim, não há um recurso econômico que seria beneficiado diretamente por este processo. E nós ainda não aprendemos a fatorar a qualidade do meio ambiente em relação ao nosso paradigma econômico.

Mas devemos trabalhar nesta fórmula de cálculo rapidamente, pois uma quebra da bolsa de valores não será nada em comparação a um colapso ecológico em escala oceânica. Sei que quanto as pessoas pensam nas profundezas azuis dos oceanos, vêem imagens de águas puras, limpas e sem poluição. Depois de colhermos amostras da superfície das águas do Pacífico Central, não consigo mais ver imagens primitivas quando eu penso nas profundezas das águas salgadas. Tampouco consigo imaginar uma solução de limpeza das praias. Somente a eliminação das fontes do problema podem resultar num oceano longe do risco do plástico, e este resultado será visto apenas por cidadãos do terceiro milênio DC. A batalha para mudar o modo com que produzimos e consumimos plásticos apenas começou, mas eu acho que ela deve ser travada agora. O nível de partículas de plástico no Pacífico no mínimo triplicou nos últimos dez anos e multiplicar-se por dez na próxima década não é um raciocínio irreal. Deste modo, seis vezes mais plásticos do que plânctons estarão flutuando na sua superfície.

 

Captain Charles Moore (tradução: Luís Peazê)
Aboard Oceanographic Research Vessel, Alguita
www.alguita.org

 
 

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